Desemprego e xenofobia: É preciso olhar além dos muros | Por Atnágoras Lopes

Esse mundo, controlado pelos grandes ricos, empresas e bancos, tem mesmo as suas forças e mecanismos produtores de efeitos, que se repetem ou se renovam, contra aqueles que sustentam tal sistema. Assim, toda vez que o capitalismo está em crise são os trabalhadores e pobres que ele mais penaliza.

 

Uma das maiores expressões desse mecanismo é o aumento do desemprego e todas as mazelas que o retroalimenta. Hoje, no mundo, são quase 200 milhões de desempregados formais, segundo a 0IT (Organização Internacional do Trabalho). No Brasil a soma pode ser de 14, 27 ou mesmo 65 milhões de pessoas desempregadas. Isso mesmo. Chega até um terço de nossa população, segundo estudos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Vitimados por esta chaga social, homens e mulheres que vivem do trabalho se chocam uns contra os outros, sem se aperceberem dos que lhes impõem tal condição de vida. É assim no Brasil e é assim também no restante do mundo.

 

Diante de tal drama que se acentua nos últimos anos, em nosso país vimos tomar força pela boca de políticos, sindicatos e até mesmo de trabalhadores uma série de ideias e propostas paliativas e superficiais, carregadas de insuficiências ou mesmo instrumentalizadas pelo critério de divisão da classe trabalhadora. Uma dessas ideias é a já conhecida “bandeira de luta” que exige que “70% das vagas de emprego, que venham a ser geradas, sejam reservadas à mão de obra local”.

 

Dada a situação, vindo esse tipo de proposta de parte dos trabalhadores ou mesmo de seus sindicatos, é uma reivindicação legítima e às vezes até imposta pela pressão da realidade, porém, é triste e trágico que assim o seja.

 

É exatamente nos grandes pólos industriais já existentes, em construção ou expansão, onde mais percebemos esse fenômeno. Isso é assim porque, com a crise, essas regiões foram afetadas por verdadeiras avalanches de desemprego. Situação que já dura pelo menos cinco anos.

 

Volta Redonda, Itaboraí e Caxias do Sul, no Rio de Janeiro, o estado de Sergipe, a cidade de Serra, no Espírito Santo, ou Canoas, no Rio Grande do Sul, são alguns dos exemplos onde a proposição de “70% de vagas para mão de obra local” apareceu, como projeto de lei municipal ou estadual, como cláusula de convenção coletiva de trabalho assinada entre patrões e sindicatos de trabalhadores ou como exigência de trabalhadores mobilizados em defesa de emprego.

 

O desemprego, além de impor privações e, muitas vezes, até fome ao trabalhador ou trabalhadora e seus familiares, é um monstro que vai parindo outro monstro, o da xenofobia.

 

O mais repugnante é ver que essas mazelas são utilizadas e instrumentalizadas por aqueles que governam, como forma de aumentar a divisão entre a classe trabalhadora, diminuir seus salários e direitos e, consequentemente, para permitir a retomada do lucro às empresas e bancos. Com base nesses desprezíveis objetivos é que se disseminam  “saídas” que não vão ao cerne da questão e ainda estimulam, de forma sutil ou explícita, o preconceito entre os próprios trabalhadores.

 

Entre tantas outras coisas paliativas e até perigosas, a proposta de impedir a contratação de trabalhadores ou trabalhadoras que “não sejam daquela região” ganha voz em diversos atores. Regra geral, o político que legisla sob tal medida ou é um hipócrita, ou um populista. Já o trabalhador, quando apoia ou se mobiliza por tal cláusula de barreira contra seu companheiro de classe, o faz, normalmente, num ato motivado pelas péssimas condições sociais e empurrado pela aflição gerada pelo próprio desemprego.

 

Isso, no entanto, não deixa de ser um erro, por vezes inconsciente, ou dito de outra forma “é a reprodução da consciência da classe dominante que se expressa de maneira ativa no dominado”.

 

Para buscar entender esse cenário vale a pena tentarmos enquadrar esse fato, hoje mais presente no Brasil, nos marcos do que ocorre no mundo.

 

Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos, se apoiando em promessas como “Emprego para os Americanos e não para os Mexicanos!”. Trump levou sua proposta à máxima potência e “garantiu” que vai construir um muro entre os dois países para impedir a entrada dos trabalhadores e trabalhadoras latinas em seu país.

 

Infelizmente, diante do aumento da crise econômica mundial, da fome, do desemprego e da migração de milhões de seres humanos por todos os continentes, uma parcela dos trabalhadores e trabalhadoras americanos apoiou essa proposta.

 

Nesse último período uma das notícias internacionais que mais lemos ou escutamos é: “o governo do país “X” vai intensificar medidas que dificultam a entrada de imigrantes…”; ou ainda: “o governo de país “y” fecha fronteira à imigrantes e refugiados”.

 

Na Alemanha se advoga a necessidade de fechar sua fronteira com a Suíça, sob a alegação de que “como a fronteira entre Itália a Suíça é frágil, por lá passam muitos imigrantes vindos de países como a Nigéria, Guiné ou Costa do Marfim e, consequentemente, chegam até a Alemanha”.

 

Também na Grécia se lança mão do fechamento de fronteira com a Macedônia para impedir a entrada de refugiados vindos de países em guerra, como Síria, Afeganistão e Iraque.

 

Agora, no Brasil, estamos vendo conflitos lamentáveis, provavelmente estimulados por políticos e governantes locais, entre trabalhadores de Roraima e refugiados venezuelanos, que fogem da fome, da repressão e do desemprego e chegam em nosso país em busca uma vida melhor.

 

Mesmo considerando um amplo processo de lutas e resistência do conjunto de nossa classe, inclusive dos desempregados, contra os ataques do capital, devemos ficar alertas às armadilhas desse sistema.

 

Quando vemos propostas de leis ou cláusulas que, para supostamente defender empregos, resultam no impedimento da vinda de um determinado companheiro ou companheira de outro país ou mesmo estado ou região do Brasil, muitas vezes profissional igual a gente, para trabalhar em nossa cidade ou região, é como se estivéssemos erguendo ”muros”. Barreiras de nós contra nós mesmos.

 

É como se não percebêssemos que é a crise econômica, que os próprios donos do poder capitalista criam, que é utilizada para nos jogar uns contra os outros, nos dividir e enfraquecer a nossa força coletiva.

 

Tudo que fazem é para defender seus lucros e isto, para eles, sempre está a cima de nossas vidas.

 

O desespero e a necessidade humana imediata por sobreviver nesse “mundo cão” tendem a nos tornar insensíveis e ter atitudes inimagináveis.

 

O capitalismo nos usurpa o censo coletivo e distancia-nos da consciência de classe.

 

Quando está em crise, esse mesmo sistema joga todas as consequências em nossas costas e, ainda, nos conduz à ideia falsa de que “a saída dessa situação, só depende de mim e de mais ninguém”.

 

Assim vamos nos movendo em busca da chamada sobrevivência e, para alcançá-la, por vezes sem percebermos, vamos “erguendo muros e fechando fronteiras” contra nossos companheiros e contra nós mesmos.

 

Vamos imaginar um profissional desempregado, morando de um lado de uma ponte que divide dois municípios, e as vagas de emprego estejam do outro lado.

 

Onde nascemos? Onde moram nossos pais? Por quantos estados ou até países tivemos de passar, trabalhar, para criarmos nossos filhos e nos tornarmos o profissional que somos? Em que parte do mundo tivemos de ir para conseguir o nosso primeiro emprego?

 

A resposta a essas perguntas, somada a busca de uma visão mais geral sobre a crise econômica e migratória mundial pode nos ajudar a crer e a agir para mudarmos este estado de coisas.

 

Passo decisivo, nessa mesma toada, é sabermos identificar quem afinal nos impõe essas divisões e essas desgraças.

 

A partir daí será possível nos revermos e, quem sabe, olhando além dos muros, poderemos agir como classe trabalhadora unificada, solidária, capaz de romper, inclusive no nosso imaginário, toda e qualquer fronteira que nos separe.

 

Finalmente, enxergaremos e derrotaremos nossos verdadeiros inimigos, o sistema capitalista com seus donos e agentes.

 

Até lá, sejamos mais tolerantes, parceiros e conscientes de nossos atos.

 

Por Atnágoras Lopes  – Coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém e Membro da Secretaria Executiva Nacional da Central Sindical e Popular / CSP-Conlutas

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