Documento revela que ex-presidente Ernesto Geisel autorizou execuções sumárias na ditadura

Não chega a ser uma surpresa para todos que lutaram contra a ditadura no Brasil (1964 a 1985), que os governos liderados pelos militares foram marcados por corrupção, assassinatos, torturas e perseguições, mas um documento divulgado nesta quinta-feira (10), pelo jornalista e professor Matias Spektor, da Fundação Getulio Vargas (FGV), joga luz e comprova os crimes cometidos pelo regime dos generais.

 

João Figueiredo e Ernesto Geisel

 

Um documento secreto da CIA (serviço de inteligência dos EUA), liberado pelo Departamento de Estado norte-americano, mostra que o general Ernesto Geisel autorizou a manutenção de uma política de execuções sumárias de opositores do regime em 1974.

 

Segundo um memorando de 11 de abril daquele ano, tornado público em dezembro de 2015, mas que ganhou publicidade somente essa semana após pesquisas do professor Matias Spektor, Geisel autorizou que o Centro de Inteligência do Exército (CIE) continuasse a política de execuções sumárias.

 

O documento, assinado pelo então diretor da CIA Willian Colby e endereçado ao então secretário de Estado Henry Kissinger, afirma que o general Geisel disse ao chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) à época, João Baptista Figueiredo, que seria seu sucessor e se tornaria presidente entre 1979 e 1985, que as execuções deveriam continuar.

 

O encontro teria ocorrido em 30 de março de 1974 entre Geisel, Figueiredo e os generais do CIE Milton Tavares de Souza (então comandante do centro) e Confúcio Danton de Paula Avelino (que assumiria o comando do CIE posteriormente). Ainda segundo o documento, o general Souza informou que cerca de 104 pessoas que entraram na categoria de “subversivos” foram sumariamente executadas pelo CIE no ano anterior.

 

Subversivos para o regime eram todos aqueles(as) que ousaram desafiar a repressão e o terror da ditadura. Estudantes, trabalhadores e militantes de esquerda foram as principais vítimas.

 

De acordo com o texto, Figueiredo deveria ser consultado e dar a ordem final sobre a execução a ser realizada.

 

Nas redes sociais, Spektor se disse estarrecido com o conteúdo do memorando: “é a evidência mais direta do envolvimento da cúpula do regime (Médici, Geisel e Figueiredo) com a política de assassinatos”. Não está divulgado quem foi o informante sobre a reunião dos generais brasileiros à CIA.

 

 

Ditadura nunca mais!

Para o integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Luiz Carlos Prates, o Mancha, a divulgação do memorando só confirma o que já se sabe desde os anos de chumbo sobre os governos militares. “A ditadura militar, que contou com amplo apoio dos setores empresariais, foi corrupta, subalterna aos interesses dos EUA, matou, torturou e perseguiu milhares de pessoas”, afirma o dirigente que acompanhou os trabalhos do Grupo de Trabalhadores da Comissão Nacional da Verdade.

 

“É importante que se dê a mais ampla divulgação de documentos como esse que mostra as atrocidades cometidas, para que todas as pessoas, principalmente aqueles que não viveram aquele período, conheçam a verdade. É preciso desmascarar figuras como Bolsonaro e defensores da ditadura que mentem e enganam quando falam desse período. O fato que é a ditadura perseguiu, torturou e matou todos aqueles que lutaram por liberdade, que eles conseguiram”, afirmou.

 

“Nossa luta é para que nunca se esqueça, para nunca mais acontecer. Seguimos exigindo justiça, verdade e reparação. É preciso revisar a Lei de Anistia para punição de todos os torturadores e a responsabilização das empresas que perseguiram os trabalhadores e colaboraram com a ditadura”, disse.

 

Documentos destruídos

O memorando de número 99 faz parte de uma série intitulada Foreign Relations of the United States (Relações Exteriores dos Estados Unidos) e documenta a história das relações dos Estados Unidos com a América do Sul entre 1973 e 1976. Apesar de os EUA terem retirado o sigilo em 2015, o primeiro e quinto parágrafos do texto sobre a reunião permanecem sigilosos. O documento original está arquivado no escritório do diretor da CIA em Washington. A transcrição está disponível online em um site do governo federal norte-americano (https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve11p2/d99?platform=hootsuite).

 

Em nota, o Exército Brasileiro informou que os documentos que poderiam comprovar as afirmações divulgadas no memorando da CIA foram destruídos, de acordo com norma da época que visava “preservar informações sigilosas”.

 

Na ditadura é assim: matam, roubam e destroem para esconder seus crimes.

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